Idol.News3

"I want to turn the whole thing upside down"

Primeiramente queria pedir desculpas pela ausência. Muita coisa para fazer e pouco tempo para executá-las. Mas hoje, eu precisava arrumar 10 minutos para mais uma coluna. Antes de começar minha explanação queria deixar algumas coisas claras:

1ª) estou sendo o mais imparcial possível. Se mudássemos os nomes dos personagens, a idéia seria a mesma;
2ª) há uma grande diferença entre sucesso de crítica e de público. Uma música que está nas paradas e vende horrores pode não ser sucesso de crítica. E uma música excelente, com propostas inovadoras pode morrer na praia;
3º) esta é a minha opinião. Opinião de uma jornalista que trabalha com música há 8 anos.

Pois bem. Hoje ouvi na íntegra o primeiro single pós-Idol do Kris Allen. Como todo mundo sabe, “Live Like We’re Dying” é uma regravação (a palavra é EXATAMENTE essa) do The Script. A canção está no EP de “We Cry”, primeiro single oficial da banda irlandesa. Por mais que a maioria nem saiba da existência do grupo, é regravação porque a música existe, foi publicada (em um EP, mas publicada), está à venda sim e possui registro.

A melodia é bacana, os vocais estão legais, mas o que me incomoda é a falta de originalidade. O Kris não modificou uma nota sequer da versão original. Reproduziu fielmente os mesmos melismas do vocalista Daniel O’Donoghue.

Na minha cabeça, a primeira música de trabalho de um CD deve resumir a cara do álbum. Deve ser catchy o suficiente para deixar os fãs querendo mais. Deve apresentar não só o disco, mas a proposta do artista para aquele trabalho. O primeiro single de um artista novato então… nossa! Essa analogia vai muito mais além. É mostrar por que o cara merece permanecer no mundo da música, é mostrar para que ele veio, é entrar pela porta da frente em rádios, tevês etc.

O ponto alto do vencedor do AI8 no programa foi justamente uma versão de “Heartless”, do sem-noção Kanye West. Naquela semana ele foi colocado em um pedestal como um cara original, por saber exatamente que tipo de som queria fazer e independente dos desafios dos temas apresentados, ele sempre dava o seu jeito de transformar a música em uma música do Kris. E não uma música de fulano cantada pelo Kris.

Quem me conhece e/ou acompanhou o AIPod lembra que eu não concordei com muitas das escolhas feitas por ele. Sempre o achei lugar comum já que toda semana tínhamos idéia do que ele ia fazer, mas o parabenizei em várias oportunidades por saber exatamente que tipo de imagem ele queria demonstrar e isso criou uma identidade com os fãs.

Aí hoje, parece que o mundo virou 180º. O primeiro single do vencedor do AI é uma regravação fiel. Parece que ainda estamos no programa e que o tema é “músicas desconhecidas de bandas européias”. Sei que já deve ter alguém falando: “artista novo não pode ir contra o sistema”. Desculpa, mas pode!

Sara Bareilles peitou o sistema e estourou justamente por não se submeter aos caprichos e ordens da EMI que a queriam de uma forma. Arriscou-se a perder o contrato, fez uma música reclamando da atitude, jogou no iTunes e boom! Sucesso! Kelly Clarkson fez um álbum como queriam seus patrões e flop de vendas. Pink e Christina Aguilera tiveram que lutar para poder fazer seu som próprio e mudaram completamente o marketing até então feito em torno dos seus nomes. Em todos os casos, os fãs as aplaudiram ainda mais e permanecem ao seu lado até hoje.

Se Kelly Clarkson tem uma carreira duradoura, apesar dos altos e baixos, não é porque apenas canta bem. Canta bem e fez um pop diferenciado quando o chiclete tava em alta. Carrie soube rejuvenecer a mistura pop/country apresentada por cantoras não mais tão jovens como Shania Twain, Faith Hill e LeAnn Rimes. Em compensação, Fantasia Barrino resolveu fazer R&B como todas as outras cantoras do gênero e flopou. Chris Daughtry foi amplamente acusado de seguir os passos do Nickelback, assim como David Cook.

“Live Like We’re Dying” cabe na voz do Kris? Claro que cabe! Então por que não pegar esta vibe? Encomendasse uma letra ao Daniel, ao Jack Johnson, o Mraz!! Que fosse… mas regravação fiel, pra mim, foi falta de originalidade, de imposição, de lutar pelo SEU PRÓPRIO SOM!

Aqui mesmo no Pop-Up já falamos de como a música está igual hoje em dia. Já comentamos quando falamos do vocoder, do eletro pop… ae agora parece que o descaramento foi tão grande que em vez de seguir o mesmo gênero, resolveram lançar um single idêntico ao original. “Live Like We’re Dying” podia estar no cd do Kris? Claro! Só me recuso a crer que ela é a música mais forte do álbum para ser lançada como primeiro single. E cadê todas aquelas parcerias com produtores de renome? Nenhuma é mais forte ou impactante do que uma música de outra banda vendida para o Kris?

Nada contra regravações, eu as adoro. Releituras são sempre bem vindas, mas como primeiro single de um primeiro trabalho desta dimensão, não concordo! Quem não conhece a original, não está nem aí. Os fãs também não estão nem aí e eu os entendo perfeitamente. A música é ótima, vai pegar, vamos ouvir empolgados e tocar na rádio. É aquela diferença de sucesso de público e crítica que comentei lá em cima. Só que eu trabalho com isso, vivo isso, respiro esse outro lado mais racional da música, e é complicado!

Não estou aqui dizendo que o Kris é ruim. Só acho que além dele não ter tido nenhuma atitude em defender seu trabalho, deixou que os produtores e agentes da gravadora e  da19 Entertainment se importassem pouco com sua carreira. Mariah Carey está aí! O novo single, também é uma regravação, e até mesmo para uma cantora que já tem 20 anos de carreira e que não precisa provar mais nada a ninguém, isso foi motivo de críticas.

Para ser original não precisa ser gay, usar calças coladas, passar gel no cabelo e lápis nos olhos. Se fosse, o gênero do Emocore não teria metade das críticas que tem ao seu respeito.

Ser original é questão de postura, ser fiel a você e ao seu trabalho e, claro, defendê-lo. O mundo está cheio de artistas que seguem os passos dos outros porque o caminho já está traçado e não quer ter trabalho algum! Está recheaaaaaado de sugadores de idéias! Criar algo e enfrentar as críticas é muito mais difícil e são poucos os que se arriscam.

Título:
“Upside Down” - Jack Johnson